Nos anos 70, as reuniões da família Maia e seus amigos na casa da tia Lúcia foram, para mim, momentos inesquecíveis. Lá, entre conversas, brincadeiras e brigas debatíamos desde os assuntos familiares até o futuro da humanidade. A diversidade de temas era tanta que aquele espaço recebeu o apelido carinhoso de EmbAIxAdA. Em 2002, morando na França, criei este blog e não me ocorreu outro nome pra batizá-lo, era uma maneira de matar as saudades. Nada melhor do que fazer uma “horinha” na varanda da 1645!
Ontem, dia 5 de março, o poeta cearense Patativa do Assaré, morto há dois anos, estaria completando 95 anos. Pra quem não conhece, ele é o autor dos versos da Triste Partida, cantados por Luís Gonzaga.
Eu tive o privilégio de vê-lo recitar seus versos em um teatro de Fortaleza, há muitos anos. Mas, para vê-lo e trocar uma idéia com ele, bastava pegar um ônibus e ir até a cidadezinha de Assaré, no sertão do Ceará, onde ele morava.
Para saber um pouco mais sobre Patativa do Assaré, clique nas fotos acima, e para ler sobre a nossa literatura de cordel, clique aqui ou aqui.
Abaixo uma das minhas favoritas:
Seu Dotô me Conhece?
Patativa do Assaré
Seu dotô, só me parece
Que o sinhô não me conhece,
Nunca sôbe quem sou eu,
Nunca viu minha paioça,
Minha muié, minha roça,
E os fio que Deus me deu.
Se não sabe, escute agora,
Que eu vou contá minha história,
Tenha a bondade de ouvi:
Eu sou da crasse matuta,
Da crasse que não desfruta
Das riqueza do Brasi.
Sou aquele que conhece
As privação que padece
O mais pobre camponês;
Tenho passado na vida
De cinco mês em seguida
Sem comê carne uma vez.
Sou o que durante a semana,
Cumprindo a sina tirana,
Na grande labutação,
Pra sustentá a famia
Só tem direito a dois dia,
O resto é pra o patrão.
Sou o que no tempo da guerra
Cronta o gosto se desterra
Para nunca mais vortá,
E vai morrer no estrangêro,
Como pobre brasilêro,
Longe do torrão natá.
Sou o sertanejo que cansa
De votá, com esperança
Do Brasi ficá mió;
Mas o Brasi continua
Na cantiga da perua:
Que é: - pió, pió, pió...
Sou o mendigo sem sossego,
Que por não achar emprego
Se vê forçado a segui
Sem dereção e sem norte,
Envergonhado da sorte,
De porta em porta a pedi.
Sou aquele desgraçado,
Que nos ano atravessado,
Vai batê no Maranhão,
Sujeito a todo matrato,
Bicho de pé, carrapato,
E os ataque de sezão.
Senhô dotô, não se enfade,
Vá guardando esta verdade
Na memóra, e pode crê
Que eu sou aquele operáro
Que ganha um pobre saláro
Que não dá nem pra comê.
Sou ele todo, em carne e osso,
Muntas vez
Não tenho armoço
Nem tombém o que jantá;
Eu sou aquele rocêro,
Sem camisa e sem dinhêro,
Cantado por Juvená.
Sim, por Juvená Galeno,
O poeta, aquele geno,
O maió dos trovadô,
Aquele coração nobre
Que a minha vida de pobre
Munto sentido cantou.
Há mais de cem ano eu vivo
Nesta vida de cativo
E a potreção não chegou;
Sofro munto e corro estreito,
Inda tou do mêrmo jeito
Que Juvená me deixou.
Sofrendo a mesma sentença,
Tou quage perdendo a crença,
E pra ninguém se enganá
Vou dexá meu nome aqui:
Eu sou fio do Brasi,
E o meu nome é Ceará!