Terça-feira, Julho 06, 2004


Neuminha, a Socorro foi pra Bela Cruz, ela tirou suas férias agora no começo de julho para poder estar presente no aniversário de seu avô, que completa oitenta e tantos anos. Ela está comigo desde fevereiro de 96, o Ivan tinha 5 anos e a joana 7, eles logo a conquistaram. Durante o ano que passei na França, eu me virei muito bem sem ela, mas, de volta à Fortaleza, não consigo administrar minha vida sem a sua ajuda, ela que muito mais do que uma empregada, é uma boa amiga que tenho em casa.

A viagem do Giovanni coincidiu com as férias da Socorro e com as férias escolares, por esse motivo tive que antecipar as minhas férias do trabalho, pra poder estar presente, dando assistência às crianças e cuidando pra que eles não "derrubem" a casa...

Enfim, com o marido ausente e mesmo sem a Socorro, resolvi fazer uma arrumação daquelas em que a gente remexe o fundo dos baús, com a intenção de jogar fora mil tralhas mas nunca consegue se desfazer de nada, pois cada uma daquelas tralhas tem sua história e seu valor sentimental...

Revirando meus "baús" encontrei "relíquias pré-históricas", como os dois primeiros exemplares de uma revista de poesia, chamada VID'RAÇA de 1978/79, uma revista patrocinada pela Credimus Aldeota (que já faliu há séculos). Também encontrei alguns exemplares da revista PÁSSARO e da revista PORÃO, ambas editadas pela UFC, em 1980, onde encontrei, muita coisa boa, entre elas uma poesia do meu cunhado, Natalício Barroso e alguns desenhos do meu amigo Ricardo Ruben. Nessa época, final dos anos 70 e início do anos 80, eu morava no Rio de Janeiro, mas de 6 em 6 meses, eu vinha passar as férias aqui, foi uma fase culturalmente muito rica pra Fortaleza, quando o teatro da Encetur ainda funcionava e a gente podia ver por lá muitos artistas locais, inclusive o grande Patativa do Assaré.

Voltando às revistas, a mais artesanal e a mais antiga das que encontrei é a VIDR'AÇA . Eis o que há na primeira página do seu no primeiro exemplar - ano 1, número 1, nov/dez de 1978:

Uma breve explicação:

A idéia foi do Júlio e do Moreno.
A maior força foi a do Mino.
Participaram todo os que estão presentes,
E taí o trabalho,
onde os da terra
revelam sua vida e sua raça.
Porque poeta é assim,
com duas palavras diz tudo:
vid'raça.


agradecimentos especiais a:

MIno Carta....
Franzé (da Credimus)
Vicente (d'O Povo)


e um PS enigmático:

POR DETRÁS DESTA
ESTRUTURA FRÁGIL,
OLHOS ATENTOS...


A maior parte da turma que escrevia na Vid'raça assinava apenas o seu prénome, o que torna difícil, pra mim, identificar quem são e descobrir o que é feito desses poetas, as exceções são o Mino, cartunista e poeta, famoso não apenas no Ceará, o Adriano Espíndola, hoje professor do curso de Letras da UFC, e o Petrúcio Maia, poeta e compositor muito conhecido. A maioria deles era, com certeza, muito jovem naquela época, mas suas poesias são muito boas, gostaria de mostrá-las todas aqui - quem sabe, aos pouquinhos, vou mostrando tudo...

Para hoje escolhi um poema do Moreno que fala do seu sentimento para com Fortaleza, intitulada "Da Ponte Metálica". A Ponte Metálica, ou Ponte do Ingleses, hoje um belo cartão postal de Fortaleza, era naquela época apenas um pier abandonado, no bairro da Praia de Iracema, era ponto de encontro da turma boêmia, principalmente os artistas. Próximo à ponte, o bar Estoril, hoje restaurado e muito bonito, mas naquela época em ruínas, era também ponto de encotro de artistas e, provavelmente, algumas das belas músicas e poemas que hoje admiramos foram compostos por lá.

DA PONTE METÁLICA
(minha Cidade)

Moreno

Aqui da ponte, Fortaleza,
vejo prédios que brotam em tua face
como espinhas

És menina
maravilhada com o frenesi dos cifrões

Sobre teu corpo adolescente
não mais passeiam as mãos grossas e peludas dos coronéis
agora são mãos finas e habilidosas
internacionais

Geme, Fortaleza, vende teu hálito e teu calor
entrega-te ao ilusório prazer
de ser uma peça importante
no jogo desses senhores
saboreia esses delírios instantâneos
pois em breve
serás apenas mais uma
adulta e prostituta
e do teu ventre fétido e negro
brotará a luz roxa
das neuroses urbanas
e eu nunca mais poderei dizer
que te amo



Segunda-feira, Julho 05, 2004


Domingo, Julho 04, 2004


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