Quarta-feira, Agosto 25, 2004



O Bicho

Manuel Bandeira

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.




Este poema de Bandeira sempre me comove. Na primeira vez em que o li, ainda adolescente, a minha reação foi de surpresa e de admiração pelo talento do poeta em dizer tanto com tão poucas palavras. Naquela época, (anos 70) o drama da fome e do abandono eram, para mim, coisas distantes, vista apenas em livros, como Capitães de Areia (Jorge Amado) que acabara de ler... Nos anos 70 em Fortaleza e no Rio (cidades onde vivi) a vida me parecia tranqüila, havia pobreza, mas os pobres trabalhavam e sobreviviam dignamente, não me lembro de ter visto a miséria naquela época, embora ela já existisse. De lá prá cá tenho repetido pra mim mesma que o "Brasil não fica pior do que já está..." só, que dia após dia, mandato após mandato, a coisa piora... cada dia fica mais difícil sobreviver, as cidades se transformaram em selvas, os vidros dos carros fechados e as residências gradeadas. E o pior: eu não me conformo de sentir medo das crianças que estão nas ruas!!! Crianças que são ameaças à vida e ao patrimônio de quem ainda possui alguma coisa... Mas essa ameaça é ainda maior, no meu entender é uma ameça ao futuro da nossa Nação! E as reações são as mais diversas, positivas e negativas: movimentos organizados como o MST, invasões urbanas e rurais, assaltos, roubos, justiceiros, movimentos neo-nazistas.... e agora esses crimes: mendigos sendo assassinados em São Paulo, em Pernambuco e até em Fortaleza, onde um morador de rua foi recentemente incendiado... Vivemos o caos! Luz no fim do túnel? Não vejo! A grande alegria e a grande esperança que senti no 1º de janeiro de 2003, eu as perdi...






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